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Saturday, 24 April 2010

Cravo e canela

Há tanto tempo que a Maria sonhava secretamente com este dia. Sentia que tinha finalmente, chegado o momento certo para um primeiro encontro frente-a-frente... Conhecera o João, há 5 meses, numa rede social da Internet. De gostos comuns, filosofia de vida semelhantes, partilhas e confidências, passariam a fazer rapidamente, projectos comuns e juras de amor.. A Maria morava no Porto. O João, em Lisboa. A distância, mantivera a hipótese de se conhecerem pessoalmente, adiada, mas sempre presente, quando um dia se proporcionasse. Hoje era chegado esse dia. Combinaram encontrar-se no Café Guarany, na Avenida dos Aliados no Porto. Para que ambos soubessem quem era o outro e facilmente se ientificassem, ficou estabelecido que nessa tarde levariam um cravo vermelho na lapela ou na mão.

Maria estava já pronta quando deu uma última olhadela ao espelho no interior do guarda-vestidos. Decidiu trocar de roupa no último momento. Tinha de ser uma roupa especial... tão especial como a ocasião aguardada há muito, com tamanha expectativa. Trocou de vestido umas quantas vezes, até finalmente optar por aquele que vestira inicialmente. Também trocou de carteira. Maria sabia que estava ansiosa. Também não era para menos... estava já viúva há dez anos, e nunca mais pensara em arranjar namorico ou outro marido, por isso surpreendeu-se quando o seu coração lhe pregou a partida de se interessar pelo João e até, fantasiar um futuro partilhado... Deu mais um retoque no batom discreto dos lábios e colocou o cravo vermelho, comprado de manhã, quando fora à rua, na lapela do casaco. Apanhou o autocarro em direcção à Avenida. O encontro estava marcado para as 15 horas da tarde.

O João, chegou cedo à Estação de Campanhã no Porto. Aproveitou para tratar de uns assuntos pessoais e almoçar com um amigo de longa data. Com a pressa de chegar a Santa Apolónia de manhã cedo, tinha-se esquecido do telemóvel em casa. Felizmente, o amigo esperava-o na Estação de comboios. No final do almoço, despede-se do amigo e compra um cravo vermelho num quiosque ali perto. Coloca a flor na lapela e apanha também ele, o autocarro em direcção à Praça. Estava todo empolgado com este encontro. Já não se sentia assim há muito tempo... apesar dos seus 74 anos, sentia-se com menos 30 ou 40 anos... conhecer a Maria através da Internet, fora o melhor que lhe acontecera nos últimos tempos. Mal podia esperar para conhecê-la ao vivo...

Curiosamente, ambos os autocarros chegaram à Avenida dos Aliados sensivelmente ao mesmo tempo. E o entusiasmo de ambos, desvaneceria também sensivelmente no mesmo momento. Em toda a Avenida, várias centenas de pessoas encontravam-se nas celebrações de aniversário do 25 Abril, munidas de um cravo vermelho. Maria apercebendo-se que o telemóvel ficara na outra carteira, sentiu-se um pouco desorientada, sem saber o que fazer, não sabia se deveria manter o encontro no Guarany ou não... Entrou no café e pediu um café com canela. À sua volta, quase todas as mesas tinham alguém com um cravo na lapela, botão da camisa ou pousado em cima da mesa...

O João, desanimado, quis confiar na sua capacidade de a identificar, apesar deste contratempo inesperado... Entrou no Guarany e olhou atentamente para as mesas. Foi então que se dirijiu à mesa da Maria e perguntou, "Dá-me licença... esse jornal é da casa? Já acabou de ler?", e quando ela acenou afirmativamente, sentou-se na mesa do lado.

"Se calhar nem veio...", pensou o João, enquanto folheava o jornal.
"Se calhar, até só esteve a se divertir à minha custa... sou tão ingénua...", pensou a Maria, enquanto tomava o seu café com canela. Saíram ambos, sensivelmente à mesma hora do Guarany e dirigiram-se para a mesma paragem de autocarro. Aí, deitaram as respectivas flores da revolução interior que lhes ia na alma, no cesto dos papeis da paragem, com um suspiro. Foi aí que olharam um para o outro e sorriram...

"Maria?", perguntou timidamente o João. Maria acena afirmativamente. Entraram no primeiro autocarro e deram de imediato as mãos. Não haveria mais imprevisto que os fosse separar.

16 comments:

  1. AGRADOU-ME IMENSO...APESAR DE TUDO NÃO SE PERDERAM, UMA FORÇA MAIOR UNIU-OS...QUANDO TEM DE SER,É MESMO...SERÁ ACASO OU FRUTO DO DESTINO? NÃO SEI...

    BEIJINHOS, BOM SÁBADO

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  2. Sou um bocado avesso ao destino, preferindo acreditar em coincidências ou intuições. Não será por acaso que dizem que o amor "é cego e vê", ditado tão bem transposto para este texto, onde além do chamamento das almas gémeas se verifica que o amor não tem idade.

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  3. :) Eu acredito (ou não quero deixar de acreditar) em destino... Beijinhos Evinha! Tenho andado desaparecida mas não me esqueço dos que me tocam de maneira especial!!! :)

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  4. "Aí, deitaram as respectivas flores da revolução interior que lhes ia na alma, no cesto dos papeis da paragem, com um suspiro. Foi aí que olharam um para o outro e sorriram..."

    Perdeu-se uma revolução, ganharam um amor!
    Um texto cheio de esperança!
    Abril é isso mesmo esperança...que apesar de tudo continuo a ter.
    Beijinhos

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  5. Ainda bem que conseguiram descobrir-se, gosto de finais felizes. Especialmente no outono da vida, quando há que aproveitar todos os momentos.
    Bjs

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  6. Que forma original e bonita de comemorar a data de hoje!
    Beijinho.

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  7. A revolução romântica é bem bonita!

    Um beijo

    Manuela

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  8. Bolas Eva, se descreveste a Maria sem que ela exagerasse no eyeliner, seria imperdoável que o encontro com o João falhasse.

    Sendo o 25 de Abril indissociavel da generosidade, como reescrever a História?

    Bjs

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  9. :)

    Estou arrepiada.
    E cheia de saudades tuas minha querida!

    Beijinho,

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  10. Dizem que o amor é cego. A mim parece-me que cega.
    Então esses 2 ceguinhos foram logo escolher o cravo para identificação? E marcaram o encontro para o 25/4? E esqueceram-se do telemóvel?
    Bem mereciam que a autora os não tivesse juntado no fim e os recambiasse para as respectivas casas sozinhos.
    Enfim...para não acabar tudo mal, obrigava-os pelo menos a outra viagem ao Porto para novo encontro, mais organizado e com malmequeres em vez de cravos.
    É o que eles mereciam. :-)

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  11. É bom saber que os cravos são lembrados por muitos. Muitos murcharam...outros até têm vergonha de ser mostrados...mas continuam a representar um ideal de Esperança e Vontade, por mais desencontros que possam provocar num qualquer café, num qualquer casal, virtual ou não.

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  12. A confusão dos cravos foi apenas um pequeno inconveniente para quem tinha a força de se querer realmente aproximar.

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  13. Uma história, via internet, com final feliz...
    Finalmente...:):):)
    Gostei imenso desta sua "comemoração" de Abril
    Abracinho saudoso

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  14. Pedrasnuas,
    Pois esse é a grande incógnita... is it fate? Sei lá eu..., só sei que me apeteceu um happy end... :) beijinhos,

    Miguel,
    Mas tinhas dúvidas que houvesse idade para o amor?? :)) por acaso, penso que não há assim tantas coincidências como isso... ou é o destino, ou então, uma sorte dos diabos, convenhamos... beijinhos

    Buxexinhas,
    Minha querida! Tens andado desaparecida e eu também!! Já sabes que o meu pc faleceu? Pois... ando por pc's alheios..Que seria dos nossos corações românticos se não acreditassemos em destino? :) Beijinhos

    Fê,
    Abril, foi esperança... agora, tenho mais esperança neste romance... Beijo,

    Teresa,
    Ora nem mais... já viste o desperdício se se perdessem e por qualquer orgulho descabido, deixassem de comunicar? Pensei num desencontro final, mas achei que não mereciam... :)) Beijinhos,

    Pinguim,
    Também andas desaparecido! (I don't blame you...) Original, pois... apeteceu-me dar uma outra conotação ao cravo, que a outra estaria saturada nesta data, rrssss. Beijinhos,

    Manuela,
    As revoluções, podem sempre acabar bem... se se quiser... ou podem simplesmente, acabar... Beijinhos

    JPD,
    Não era imprescindível... mas desejável... :)) beijo,

    izzie,
    Estás arrepiada? São os chills, que este blogue provoca, rrss..... não tenho tido tempo para mandar mails querida, nem para nada aqui, até já penso que terei de desistir disto... beijinhos,

    Carapau,
    Quando marcaram o encontro, esqueceram-se desse pequeno pormenor, rrsss, que maldade, terem de fazer outra viagem... ainda falecia um deles antes... mas tem amor que não é cego?? :) Beijo,

    José Q Soares,
    Ainda é lembrado por muitos, felizmente. E os ideais que representa... Mas também podemos deixá-lo ser uma simples flor de vez em quando... e usá-lo na lapela num outro dia qualquer, por outro motivo qualquer... Abraço

    fd,
    Quantos amantes não se terão já afastado por pequenos pormenores mal interpretados? Será a força do destino?

    maria teresa,
    As histórias via Internet, são como as outras histórias de amor... umas acabam bem, outras, nem por isso... :))
    Estou em falta consigo, mas logo que puder, mando um mail. Nem para escrever mails tem dado... beijinhos saudosos também

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  15. Tudo está bem quando acaba bem...

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  16. Tio,
    That's what they say... I suppose it's true...
    :)) big kiss

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