A antiga e imponente moradia, estava iluminada, por 4 candeeiros de ferro forjado no pátio, iluminando um pequeno caminho de pedras desalinhadas até à escadaria principal. Naquela luz artificial, a casa parecia-lhe algo acolhedora, bem diferente da que tinha na memória, intimidante, ameaçadora. E no entanto, a casa era a mesma. Pintada de branco, com persianas de madeira, ainda mantinha uma enorme buganvília vermelha a adornar a frente da casa. Na penumbra da noite, não se via a tinta a descascar, nem o desgaste dos anos, a necessitar de obras.Subiu vagarosamente os degraus ate à entrada. Pequenos vasos de flores com cores indiferenciadas pela escuridão, ladeavam as escadas. A cada passo, sentia o ritmo cardíaco ser acelerado ligeiramente um pouco mais. Hesitou no último degrau. Só mais um degrau o separava da entrada da casa. A porta estava aberta para o Leilão. Várias pessoas cruzavam a porta, quer para entrarem, quer para fumarem à entrada. A última vez que tinha visto aquela porta, ela estava fechada. Tinha sido fechada na sua cara, fazia cerca de 55 anos. Nunca mais a tinha visto. Sabia que ela tinha casado, que tinha tido um filho que fora vítima de um acidente de viação há uns anos atrás, que tinha vivido com o marido até enviuvar e que falecera havia 2 meses. Era isto que sabia. Pouco, ou nada... Em todo o caso, pensou que que seria com toda a certeza, mais do que ela teria sabido da vida dele. Ele, que tinha emigrado e feito fortuna na Austrália, com a criação de uma empresa de construção civil, ele, que nunca chegara a casar e não tivera filhos... ele, que a amara toda a vida...
O funcionário da Leiloeira, avisa que o Leilão irá começar em breve. Não havia razões para temer voltar a entrar naquela casa, a mesma, onde fora empregado na juventude e onde um dia, o pai dela, o proibira de voltar a entrar. Na soleira da porta, beatas de cigarros... tantas, que lhe chamaram a atenção... " Se a coitada da Dona Maria visse isto", pensou, "revirava no túmulo...". Um sorriso, atravessou a sua expressão de um certo carinho repentino pela mãe dela, sua antiga patroa. Ao contrário do marido, a D. Maria sempre o tratara com respeito. Apesar disso, aconselhara sempre a filha a obedecer ao pai.. Toda a casa, tinha um ar de abandono, mitigado pela suavidade do mistério nocturno. "Será que ela passou dificuldades nos últimos anos da vida?", foram os últimos pensamentos, antes de colocar um pé do lado de dentro da soleira.
A casa, permanecia fria, austera, tal como se lembrava. Percorreu as salas de exposição dos artigos a Leilão... taças de cristal, talheres de prata, serviços de chá da Companhia das Índias, jóias, pinturas de artistas nacionais e estrangeiros... Na verdade, não sabia o que procurava... queria apenas voltar e estar perto das coisas dela. Ver as suas coisas, os seus objectos pessoais, imaginar como teria sido a sua vida. Ao fundo, na parede, um retrato da Dona de casa falecida. Deslumbrante. "Linda, como sempre", pensou. Apontou o número do artigo e decidiu que compraria aquele quadro, fosse qual fosse o preço. Podia ficar a olhá-lo toda a noite.
Sentou-se emocionado na sala do Leilão. Era a primeira vez que assistia a algo parecido. Foi vendo peça após peça ser leiloada... pequenos retalhos da vida da única mulher que amara, que se desfaziam diante dos seus olhos. Tantas coisas acumuladas ao longo dos anos... tantas peças de valor... "Foi por isto tudo que me trocaste?", pensou,"Isto... que agora vai parar às mãos de outras pessoas, que nem te conheciam... objectos que passam de mãos em mãos... a tua vida, vendida a retalho..." Admirava-se das pequenas fortunas que alguns artigos chegavam a alcançar... na opinião dele, que nada percebia destas coisas, não valiam o que as pessoas pagavam por elas... Mas gostou de a imaginar a tomar chá com aquela chávena ou a pousar um livro naquela mesa... Finalmente, chegou a vez do quadro que decidira comprar. Havia mais interessados no quadro de autor reconhecido no meio artístico e acabou por pagar, também ele, uma pequena fortuna, pela tela a óleo da sua amada.
Levou o objecto adquirido, cuidadosamente embrulhado pelo Leiloeira, para casa e pendurou-o na parede da sua sala, sentando-se na poltrona predilecta a admirar a obra. Acendeu a lareira e ceou sozinho, como habitualmente. A lareira crepitava no silêncio da noite, criando rasgos de luminosidade e sombras alternadas na sua face. Levantou-se e removeu o quadro da parede, atirando-o na lareira. Sentou-se na poltrona e deixou que finalmente, as lágrimas afogassem o passado...


Uma história muito emocional. Às vezes, é preciso uma atitude assim, para fazer o luto.
ReplyDeleteBjs
Fico sempre uns segundos a reflectir no que escreves, porque os teus textos não são só bem feitos, são emotivos e fazem-nos sempre ir mais além (penso que é este afinal o teu objectivo).
ReplyDeleteO fogo representa aqui para mim a purificação, do sofrimento e da dor.
Um excelente conselho.
Um beijinho
Fê
Tantos anos a consumir-se num amor sem esperanças e, por fim exorcizados os fantasmas desse amor nas lágrimas derramadas diante de uma tela que ardia na lareira... São tão estranhos os caminhos da vida!
ReplyDeleteUm abraço
Também sou pela cremação.
ReplyDelete:-)
Que esperava eu? As tuas histórias...são empolgantes e...os finais inesperados. É isso que mais admiro na tua escrita...
ReplyDeleteBeijos de saudade.
Graça
Eva
ReplyDeletehoje foram três páginas de uma assentada! ando para aqui com a conversa atrasada e isto não tem rigorosamente nada a ver com a sua ausência forçada, porque essa, apenas nos faz saudades...
pois...eu não sei se queimava a tela daquele que eu amara assim com tanta garra...
mas se chorou, libertou-se e libertou-a!
Gostei!
beijos
Manuela
Teresa,
ReplyDeleteTambém acho. No caso desta história, penso que nem o próprio sabia que o ia fazer. Foi um impulso de raiva...ou simplesmente um virar de página, um começo do luto, finalmente. Beijo
Fê,
:)) Fazer alguém reflectir, é sempre bom... Li algures, (alguém que até nem escreve mal de todo :)), que os lutos são sempre dolorosos...morosos... transversais. Mas mais cedo ou mais tarde, fazem-se... dizem... :) Beijinho
Dulce,
São mesmo! Estranhos e imprevisíveis! Que o amor,descanse em paz... Abraço
Carapau,
:) Eu também. Às vezes, custa é acender o primeiro fósforo... Abraço
Graça,
Por vezes adiamos o luto até à exaustão... mas ele deve fazer-se. Naquela noite, chorou pela sua amada perdida, pela primeira vez. No dia seguinte, recolheu as cinzas, deitou-as fora e foi passear à beira-rio :) beijinhos saudosos.
Manuela,
Eu também não sei se queimava a tela (valiosa, rrsss), mas garanto que já há muito tinha chorado... agora, feito o luto, isso já são outros Carnavais... mas o homem fez bem... :) Beijinhos saudosos
A história é bela e empolgante, como é normal na tua escrita.
ReplyDeleteMas, desta vez, mesmo que entenda o simbolismo, não concordo com o final...
João,
ReplyDeletePor vezes, é preciso um acto simbólico para se iniciar um luto... a decisão de lançar a tela na lareira, pode ter várias interpretações...é apenas um começo, longe de significar o luto realizado. Mas, nunca chegar sequer a iniciar um luto, nunca é saudável... não quer dizer esquecer ou deixar de sentir saudades, mas reconhecer, neste caso, que a relação já tinha acabado muito antes da morte da amada... e que há formas mais saudáveis de nos lembrarmos dos ausentes nas nossas vidas. Beijinhos
Muito bonito!
ReplyDeleteO Tirsense,
ReplyDeleteCaro José A. Mirada, muito obrigada. Este post já tem um ano, mas qualquer comentário é sempre bem-vindo, em qualquer altura! Cumprimentos!